A agenda da hora nas cidades: o aluguel de bicicletas

• Porque eu trabalhei muitos anos com o mestre urbanista Jaime Lerner, aprendi, entre outras máximas, que a cidade é o cenário do encontro, que todo projeto precisa de escala para acontecer e que na raiz da grande transformação está a pequena transformação: uma pequena mudança pode ser o começo de uma grande. Além, é claro, de que, para resolver a questão das cidades (e outras mais) não basta o governo, é preciso estabelecer uma equação de co-responsabilidade com a sociedade.

• Penso nisso tudo quando observo o tamanho da mudança em curso em muitas cidades da Europa e agora nos Estados Unidos (Washington, São Francisco e Chicago), a partir de uma iniciativa tão simples quanto o aluguel de bicicletas.

• Não começou em Paris e nem a idéia original foi do grupo publicitário JC Decaux, mas foi a capital francesa, a exemplo dos desfiles prêt-à-porter e alta costura, que lançou a moda no mundo quando implantou, há um ano, o Vélib’ (contração de Velo (bici-cleta) + libertè (liberdade) ou sigla de “Velo a libre service” = “bicicleta de uso livre”.

• Funciona assim: o sistema de aluguel de bicicletas é self-service e disponível 24 horas por dia, sete dias por semana. Os centenas de postos espalhados pela cidade (distância de 300 metros entre eles) permitem que você pegue uma das cerca de 20 bicicletas de um local e a deixe em outro (como quando você aluga um carro numa cidade e deixa em outra).Veja as distâncias entre as estações no Google Map

• Tudo é informatizado e centralizado. Os primeiros 30 minutos são gratuitos, mas você pode passar seu cartão de crédito no terminal e comprar um ticket que dá direito de um a sete dias de uso ou comprar um cartão anual por 50 euros e pegar sua a bicicleta direto, sem perder tempo.

• As bicicletas são robustas e confortáveis, mas têm um design específico e não muito atrativo para roubo (algo como um táxi preto inglês, se é que você me entende…). Além do roubo ser dificultado pela existência de um chip na bicicleta, of course, my dear Watson.

• A capital francesa começou o serviço com 10 mil bicicletas em 750 postos. Depois de um ano estes números dobraram: já são 20 mil em 1.451 postos. Mas a cifra mais impressionante é a da quantidade de viagens feitas desde o 14 juillet do ano passado: 27 milhões de usos, um aumento de 70% no movimento deste tipo de transporte na cidade. E pasme: com 20% a menos de acidentes, pois dizem as estatísticas que quanto mais bike friendly fica uma cidade, mais seguro é em suas ruas pedalar.

• O que move o projeto é a troca bicicleta X publicidade, e o pano de fundo é a briga de foice entre dois gigantes da mídia exterior e mobiliário urbano, a própria JC Decaux (francesa, maior da Europa) e a Adshel Clear Channel (americana, líder mundial), que na contramão da paulista Lei da Cidade Limpa, ganham milhões com o direito concedido pelas prefeituras de explorar os equipamentos das cidades de todas as formas (relógios de rua, pontos de ônibus, lixeiras, etc, etc, etc).

• Essa boa guerra das bicicletas começou há 10 anos, quando a Adshel venceu uma concorrência na cidade bretã de Rennes inventando um plus a mais no contrato: disponibilizar “de graça” bicicletas para livre utilização da população em troca da instalação do mobiliário urbano e da conseqüente exploração publicitária das duas coisas.

• Aprovada e adotada em outras cidades da Europa, foi em maio de 2005, em Lyon, que a febre das bicicletas ardeu em fogo, num contrato de muitas cifras vencido pela JC Decaux e a implantação do Vélo’v. Ali a JC Decaux colocou a cereja no bolo do projeto, criando um sistema que inclui um forte esquema de publicidade, cartão bancário para facilitar o pagamento e a localização, e muitos postos de retirada e entrega das bicicletas. A cereja fez também a JC Decaux duplicar seu faturamento publicitário em Lyon, além de receber uma parte das receitas e de reduzir o montante da taxa que ela paga a título da ocupação do espaço público.

• Então em 2007, com uma reeleição pela frente, o prefeito socialista de Paris, Bertrand Delanoë, apostou no discurso ecológico e criou uma nova agenda para a sua estratégia política: mais uma vez entraram em cena… as bicicletas. Alegando que era preciso reduzir o espaço ocupado pelo carro nas ruas de Paris (a meta é diminuir em 40% até 2020), o prefeito quebrou o contrato de fornecimento e manutenção de equipamentos urbanos assinado com a JC Decaux , que valia até 2010, e chamou nova concorrência para incluir as bicicletas de Lyon. Ganhou novamente a francesa, com direito ao monopólio da publicidade em Paris por mais dez anos.

• Pelo contrato, a JC Decaux se encarrega do investimento e da manutenção do sistema, enquanto a prefeitura fatura as receitas, estimadas em 30 milhões de euros por ano (uma clausula do contrato prevê mais: que 12% da receita e 12% do faturamento publicitário serão repassados à empresa se esta mantiver a qualidade do serviço, como limpeza dos locais e bom estado da frota). Em troca ainda, a prefeitura aumentou os espaços para que a empresa vencedora da concorrência, no caso a JC Decaux, venda mais publicidade, passando a explorar 1280 cartazes de 2 metros quadrados e 348 outdoors, num mercado que tem receita estimada de nada menos que 60 milhões de euros por ano

• A equação de Paris foi um tremendo sucesso e o prefeito Bertrand Delanoë foi reeleito em março deste ano com 57,7% dos votos (bem mais que os 49,6% de 2001). Grande parte do apoio foi conseqüência do “Vèlib”, pode acreditar. Porque é muito fácil perceber quando uma administração municipal acerta: fica visível na população o clima de alta auto-estima e de respeito. Ponto para o prefeito. Reeleição para o prefeito. Porque não bastam obras grandiosas, o segredo de uma gestão municipal de sucesso é também projetar e realizar sonhos. E quer sonho tão bonito quanto a sua cidade oferecer um meio de transporte ecológico, funcional, agradável, que permite o encontro entre as pessoas e é realizado em boas condições e de forma organizada? Pense nisso você também

• Pode ser até que você não concorde com o fato da prefeitura ter feito um contrato draconiano com uma empresa privada pelo serviço. Saiba que muitas cidades conseguiram implantar o sistema sem a publicidade,como Marselha e Aix-en-Provence, ou mire-se no exemplo de Barcelona (Bicing), que separou as duas concorrências, uma para os equipamentos urbanos e outra para as bicicletas, ficando a prefeitura com a receita dos usuários. Existem também sistemas diferentes do francês, como o alemão, o Call a Bike, administrado pela companhia ferroviária do país, em que as bicicletas são liberadas através do telefone celular (funciona em Berlim, Stuttgart, Frankfurt, Colonia, Munique e Karlsruhe). Outras cidades investiram prioritariamente nas ciclovias, como é o caso de Estrasburgo, e outras em serviços de locação de grande escala, como Bordeaux.

• Mais cidades que contam com serviços parecidos: Bruxelas, Copenhagen, Rouen, Oslo, Sandnes, Sevilla(Sevici), Viena, Nantes (Bicloo), Toulouse, Estocolmo, Pamplona(Cemusa). Conheça também o OYBike e o Bikeabout[4] da Portsmouth University, que de certa forma deu origem a tudo.

• Veja este vídeo do Street Films em inglês ou assista o filminho aqui, em francês, e bons sonhos!

(com informações do Le Monde).

2 Respostas

  1. I recently came accross your blog and have been reading along. I thought I would leave my first comment. I dont know what to say except that I have enjoyed reading. Nice blog.

    Tim Ramsey

  2. [...] A cidade de Amsterdã, na Holanda, é o maior exemplo de como esta prática pode ser difundida independente da escala em números de habitantes. Recentemente a cidade de Paris, na França, demonstrou o potencial de transformação do espaço urbano integrando o serviço de aluguel de bicicletas com outros meios de transporte coletivo, conforme explica em detalhes a jornalista Cila Schulman. [...]

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