* Do blog do Sérgio Dávila:
Corra que a notícia vem aíNão importa quem ganhe a eleição presidencial norte-americana, marcada para acontecer em 30 dias. A corrida já tem dois vencedores: a comediante Tina Fey e o âncora-humorista Jon Stewart. A primeira faz sucesso ao ser uma Sarah Palin melhor que a candidata a vice republicana original. O segundo veste os louros por fazer jornalismo crítico e analítico às vezes melhor do que os jornalistas de verdade.
Essa é uma eleição de primeiros. É o primeiro negro com chances reais de chegar à Presidência, o primeiro homem de 72 anos que pode vir a assumir a Casa Branca, seja quem for, será o primeiro senador desde JFK, em 1960, o único filho de queniano com uma branca do Meio-Oeste, o primeiro a nascer no Havaí, o único torturado na Guerra do Vietnã.
Mas é a primeira também em que dois programas de humor não poucas vezes ditam a agenda dos programas noticiosos. No caso de Fey, foram suas aparições no humorístico “Saturday Night Live”, onde foi a primeira redatora-chefe mulher e de onde saiu para fazer sua própria sitcom, a excelente “30 Rock”. Em uma delas, defendeu Hillary Clinton e levantou a lebre do sexismo na mídia.
Nas duas últimas, auxiliada pela semelhança física impressionante, fez uma interpretação tão perfeita da governadora do Alasca que inspirou editoriais e colunas. Mas virou notícia mesmo ao repetir quase literalmente o mar de besteiras que a candidata republicana falou numa entrevista séria a uma jornalista séria -e arrancar risadas da platéia, que achava que era piada do programa.
Já o fator Jon Stewart faz pensar. Ele é apresentador do “Daily Show”, transmitido no Brasil pela CNN internacional. Nos dois primeiros blocos, empacota os assuntos do dia com uma ironia e um cinismo que muitas vezes escapam aos que estão cobrindo o noticiário para os grandes jornais e televisões. No último, faz entrevistas com gente séria e que não aparece nas outras emissoras, como autores de livros-reportagem.
Manda aos eventos importantes, como as convenções nacionais dos partidos ou os debates presidenciais, o seu time de “repórteres”, que seguem o lema “É melhor a notícia fugir! – A equipe de repórteres que traz a notícia para você antes, antes mesmo de ela ter se tornado verdade”. Tudo muito engraçado, sim, mas sério também.
Para ficar em um exemplo, em meio a brincadeiras e risadas, um dos “atores-jornalistas” tem conseguido revelar o racismo de parte da comunidade de aposentados da Flórida com uma eficácia que a mídia ainda não alcançou. É um grupo importante de um Estado importantíssimo, e Barack Obama enfrenta dificuldades em romper o preconceito deles. Eu vi antes no “Daily Show”.
Não estou sozinho. Pesquisa recente do renomado Pew Research Center perguntou a americanos qual era sua fonte primária de informação. Para 16%, “Daily Show” ou seu “spin-off” (programa derivado), “The Colbert Report”. É mais do que os 14% que assistem ao “NewsHour” de Jim Lehrer, na PBS, que acaba de ancorar o primeiro debate, e empata com os 17% que vêem o popular “The O’Reilly Factor”, da Fox News.
Na mesma pesquisa, instados a escolher os cinco jornalistas televisivos que mais admiravam, os entrevistados responderam, pela ordem: Brian Williams, Tom Brokaw, Dan Rather, Jon Stewart e Anderson Cooper.
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