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8 de outubro de 2008

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Yom Kipur, o Dia do Perdão

por cila schulman

* Antes de eu completar 12 anos, quando não tinha idade para fazer o jejum de Yom Kipur, a alegria maior do feriado judaico era sair da Sinagoga Francisco Frischmann, no centro de Curitiba, e andar por duas quadras sem a vigilância dos adultos, então concentrados na reza do Yizkor.

* O destino final da ruidosa turma de pequenos judeus era o balcão das Lojas Americanas, onde nos seria servida uma bola de sorvete de chocolate, outra de creme e a de morango, esta última devorada antes de tudo, porque a gente deixava o melhor para o fim. O prato de vidro, em forma de barquinha, vinha transbordando com todas as suas caldas de chocolate, caramelo e marshmellow, bananas em fatias e, inevitável, a cereja em calda, que ia de troco, já que ninguém gostava mas comia assim mesmo.

* No caminho para a Banana Split ficava a Casa Cila. Não, nome da loja não é uma homenagem à minha existência. Ao contrário, eu é que fui homenageada com o nome da minha avó Cila, precocemente falecida e eternamente parceira do meu zeide Moto, como eu chamava o pai da minha mãe, meu avô Marcos, Motl em idish.

* Na porta da loja eu domava minha ansiedade, deixava a meninada seguir em frente, e parava sozinha para ler o bilhetinho pregado com muito durex, cuidadosamente manuscrito pelo meu zeide: “Fechado por motivos religiosos”.

* Meu avô não era religioso, mas religiosamente fechava a Casa Cila por ocasião do Yom Kipur. Era o único dia do ano, incluindo os domingos, em que ele não levantava heroicamente a pesada porta de aço, nem que que fosse apenas para pegar o exemplar da sua assinatura do Estadão, que ele lia por inteiro todo santo dia, menos no dia santo.

* O ritual de abrir a loja foi cumprido por ele até seus mais de 90 anos de idade, com exceção de muitos dias do perdão.  Até que o meu zeide foi capturado pela “máfia de branco”, a quem eu ouvi ele atribuir, a vida inteira, sua futura morte. Em outras palavras: meu avô não ia ao médico porque acreditava que se fosse ficaria doente e morreria. Foi o que aconteceu quando ele finalmente não pôde mais resistir à doença e acabou numa cama de hospital, à mercê da “máfia de branco”.

* Por saber da importância que o meu zeide dava ao trabalho e ao Estadão, eu fazia a leitura daquele bilhete na porta da loja fechada, em meio a tantas abertas, com a maior cerimônia. Era uma prova do respeito dele não apenas à religião, mas às suas origens,  estivesse ele no gueto da velha Europa ou ao sul do Equador.

* Meus motivos para deixar o bilhete postado acima são os mesmos das gerações que me precederam. No pôr do sol de hoje começa mais um Yom Kipur. Assim, até o pôr do sol de quinta-feira, este blog estará “Fechado por motivos religiosos”.

* Caia a Bolsa, suba o dólar, mudem as pesquisas de intenções de votos, nada vai me afastar do jejum e das preces. Enquanto isso, recomendo que você procure os links aí do lado direito e vai encontrar blogs goyim abertos para apaziguar sua sede de informações.

* Até amanhã. Gut Yontef, Shaná Tová!

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3 Comentários Comente
  1. insupor
    out 9 2008

    oi, cila, adorei seu blog. parabéns. o meu é bem diferente, bem insuportável. dê uma olhada, se puder;

    Responder
  2. Gerson Guelmann zs
    out 10 2008

    Comadre: emocionante a tua reminiscência. Me ajudou a decidir: a partir do próximo ano fecharei a loja no Yom Kipur. Decisão tardia, reconheço, mas antes assim. Uma coisa: o teu zeide certamente não abriu a loja durante 90 anos, a menos que fosse uma espécie de Matusalém.

    Responder
  3. martha schulman
    out 12 2008

    Gerson:- Também notei o erro. Papai fechou a loja durante 50 anos. Continuamos a tradição, a Casa Cila tem 61 anos! Bjs. martha.

    Responder

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