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10 de outubro de 2008

As pesquisas não captam a vontade do eleitor?

por cila schulman

Samanta Dias, repórter do Último Segundo

Na Copa do Mundo de 1958, o então técnico da seleção brasileira, Vicente Feola, dizia aos jogadores o que fazer durante o jogo contra a União Soviética. O ponta-direita Garrincha perguntou: “O sr. já combinou com os russos?”. Nas eleições deste ano, os institutos de pesquisa tiveram de responder a uma pergunta semelhante um dia depois da eleição. Porque os “russos”, no caso, são os eleitores.

A boca-de-urna realizada pelo instituto Ibope, em São Paulo, indicou Marta Suplicy (PT) rumo ao segundo turno 4 pontos à frente de Gilberto Kassab (DEM). A apuração dos votos, no entanto, mostrou Kassab com 33,87% dos votos válidos, contra 32,35% da petista. No Rio de Janeiro, o Ibope apontava Marcelo Crivella (PRB) no 2º turno contra Eduardo Paes (PMDB). Deu Fernando Gabeira (PV) contra Paes. Em Belo Horizonte, os institutos apontavam uma grande vantagem de Márcio Lacerda (PSB) sobre Leonardo Quintão (PMDB). A margem foi apertada: 43,59% contra 41,26%.

Carlos Montenegro, presidente do Ibope, diz  que não houve erro de metodologia. Sua explicação ajuda entender os limites das pesquisas eleitorais. No caso do Ibope, Montenegro explica que as pesquisas de boca-de-urna, ao contrário do que indica o senso comum, não acompanham o eleitor até o final da votação.

Como o instituto precisa computar os resultados e enviar o documento final para a TV Globo antes de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) começar a apuração, a pesquisa é feita apenas entre 8h e 14h. Além disso, há os limites do orçamento. Quanto mais pessoas são entrevistadas, mais cara é a pesquisa.

“Para captar a vitória de Kassab, eu teria de fazer 10 mil entrevistas em vez de 6 mil, espalhar mais os pontos e combinar com a televisão para que a pesquisa fosse feita até as 17h [quando a votação se encerra]”, afirmou Montenegro, em entrevista ao iG.

Outra questão tem sido levantada para atenuar o constrangimento dos institutos de pesquisa. Nos últimos anos, os eleitores estariam mudando o voto na última hora, aplicando um drible seco nas empresas.

O cientista político Jefferson Goulart, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), dá um exemplo. Segundo ele, é bem possível que uma parte do eleitorado tenha percebido, por conta das pesquisas divulgadas ao longo do último mês, que Geraldo Alckmin (PSDB) não era mais o candidato que podia rivalizar com a Marta. Na última hora, essas pessoas teriam migrado para Kassab.

Seguindo essa linha, é possível pensar que as pesquisas contribuíram

AE
Quintão, que foi ao 2º turno em BH
Quintão, que foi ao 2º turno em BH

para criar uma onda que derrubou a previsão dos próprios institutos.Goulart ainda levanta outra hipótese. A partir das eleições de 2006, as regras para a campanha eleitoral se tornaram mais rígidas. Sumiram das ruas os outdoors e os showmícios, por exemplo. Se, por um lado, eles encareciam a disputa e ampliavam o fosso entre as candidaturas abastadas e as de parcos recursos, por outro ajudavam a colocar o eleitor no “clima eleitoral”. O analista também aponta que a campanha deste ano foi muito curta, por causa das Olimpíadas e da crise nos mercados internacionais.

“O eleitor fez sua escolha muito mais tarde, e as pesquisas conseguiram mensurar apenas as tendência”, afirma ele. “Nenhuma instituto tem aparato técnico para medir pontualmente esse movimento”, conclui.

O presidente do Ibope concorda com o pesquisador e diz que os institutos não têm como acompanhar essa mudança de costumes políticos da população. “O eleitorado, a cada eleição, passa a decidir mais na última hora e a pesquisa não tem condição de indicar essa decisão de última hora.” Além disso, Montenegro assevera que, na eleição municipal, as pessoas mudam mais de opinião do que numa eleição presidencial, dificultando a atuação dos institutos.

O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, discorda tanto de Goulart quanto de Montenegro. “Isso [movimento dos eleitores] não atrapalha as pesquisas, o que atrapalha é a análise dos números das pesquisas”, diz Paulino. “Quem continuar analisando os números das intenções como prognósticos para eleição vai continuar errando.”

Paulino afirma que os institutos devem sempre deixar claro que não produzem resultados iguais aos da urna. “Nós, pesquisadores, devemos deixar isso mais claro, não chamar as pesquisas de prognóstico, mas mostrar cada vez mais que elas são intenções daquele dia apenas, senão, podemos induzir a erros”, afirma. “Onde há movimentos, as pesquisas não vão bater com o dia da eleição porque esse movimento continua a alterar o cenário depois da pesquisa.”

Pesquisas são contos de fada?

AE
Kassab comemora resultado

As disparidades entre as urnas e as pesquisas, apesar das explicações dos especialistas, têm gerado um descrédito dos institutos entre alguns analistas.

Para Marco Villa, historiador e professor da UFSCar, a diferença entre as pesquisas e as urnas mostra que “há problemas metodológicos sérios” na realização dos levantamentos.

“Qualquer pesquisa vai ser duvidosa daqui para a frente”, diz Villa. “Para não cair em uma visão conspirativa, nada melhor do que os institutos explicarem o que aconteceu e mudarem suas metodologias porque, caso contrário, não precisa de pesquisa”, argumenta ele.

Villa acompanhou a apuração pelo programa de divulgação de dados do TSE. A comparação entre os resultados das pesquisas e as informações que via na tela do computador deixaram Villa indignado.

“Acreditar em pesquisa agora é acreditar em conto de fadas”, diz ele. “Fiquei até meia-noite esperando um milagre acontecer, todos os votos irem para Marta para que ela passasse o Kassab porque, afinal, eu acreditei nas pesquisas”, acrescenta o historiador.

O presidente do Ibope afirma que o único problema do instituto foi na boca-de-urna em São Paulo. Já o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, disse que “as pesquisas foram tão precisas como sempre”.

Tendências

A palavra mais usada pelos institutos de pesquisa em sua defesa é “tendência”. Eles dizem que, se erraram os números, ao menos acertaram a tendência de alta e de queda dos principais candidatos.

Essa é a opinião de Goulart, da Unesp, que não vê grandes erros nos números indicados pelas pesquisas para a sucessão municipal, seja em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Belo Horizonte.

“As pesquisas conseguiram captar as tendências em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte”, afirma. “Todas as pesquisas no período mais recente conseguiram identificar a subida de alguns candidatos e indicaram essas tendências, no entanto, elas não conseguiram mensurar o volume”, explica.

Para ele, quando as pesquisas erram isso geralmente acontece porque a metodologia ou o critério de mensuração dos dados escolhido não foi a melhor opção.

AE
Gabeira comemora vitória no Rio
Gabeira comemora vitória no Rio

Rubens Figueiredo, cientista político da Universidade de São Paulo (USP), afirma: “As pesquisas não estiveram tão erradas, porque, se você pegar a tendência que elas indicavam, a tendência de Marta e Crivella era de queda, a tendência de Kassab, Gabeira e Quintão era de alta”. Para ele, “os institutos podem não ter acertado o resultado, mas indicaram a tendência correta”.Para Mauro Paulino, “é errado comparar a última pesquisa com o resultado da urna, o que deve ser considerado válido é se a tendência apontada foi coerente”.

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