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24 de outubro de 2008

Campanha eleitoral em Belo Horizonte: “Cêbesta!”

por cila schulman
Foto Flirck Drunken Butterfly

Foto Flirck Drunken Butterfly

Artigo de Poliana Braga, jornalista e educadora

Não é de hoje que recebemos e-mails com piadas e histórias sobre os jecas mineiros (ou seriam mineiros jecas?). Vira e mexe, o “mineirim” aparece. E quem de nós não ri? São poucos. Há também o “mineirês”, dialeto regional facilmente reconhecido pelas contrações, supressões, neologismos (“badapia” = embaixo da pia, “mezzz” = mesmo, “óia” = olha, “cesvai?” = vocês vão?).

Conhecemos personagens memoráveis como o Nerso da Capitinga do Pedro Bismarck, o Ceguinho do Geraldo Magela, a Maria Gorette com a sua Filó, as encenações do Kaquinho Big Dog e por aí vai. Rimos de nós mesmos. Dos nossos trejeitos, sotaque e manias. E constatamos que esse estilo mineiro de ser, que faz parte da nossa “mineiridade” existe, inclusive, na Grande Belo Horizonte. Quem vai dizer que não? A nossa elite financeira, política e intelectual é, na sua maioria, jeca. Muito jeca.

Só tem um problema, e as eleições de 2008 comprovam isso com clareza: nós podemos rir e falar de nós mesmos, mas não gostamos que os outros façam chacotas sobre o nosso  jeitinho”. Aquela coisa de “eu posso falar da minha família, você não!”. Muito mineiro isso.

Quando o Leonardo “Jeca” Quintão aparece no primeiro turno das eleições para a prefeitura de Belo Horizonte, ele, como vários outros novos personagens políticos, apresenta muitos atributos favoráveis: jovem, bonito, com proposta própria e um estilo “gracioso” e firme de falar. Diferente dos velhos caciques. E, com tantas qualidades e contando com a displicência antropológica da campanha do Márcio,  conseguiu derrubar o curral preparado por Aécio e Pimentel.

O povo belo-horizontino – ou deveria falar de “Belzonte”? –  mostrou-se aguerrido contra o voto de cabresto. O erro estratégico da campanha de Márcio é simples de entender: faltou conhecimento sobre a tão falada mineiridade. No sentido mais restrito e tacanho do termo. Mesmo elegendo sucessivas prefeituras de esquerda (boa referência ao  Patrus em 1993), tendo apoiado fortemente o neto do saudoso Tancredo Neves e aprovado a questionável continuidade da gestão de Célio de Castro pelas mãos do Pimentel, o resultado: Marcio Lacerda (PSB) – 43,59% – 549.131 – votos e Leonardo Quintão (PMDB) – 41,26% – 519.787 – votos faz muito sentido para quem conhece essa terrinha.

Aliás, isso de “mineiro ser de esquerda” não é bem assim. Acho que está mais para a postura de “hay gobierno, soy contra”. E, para não ser favorável ao candidato do governo, o povo votou contra. Desde quando Leonardo Quintão faz oposição ao governo? Ele nunca foi o candidato da mudança, da oposição. Ele, assim como Márcio, posicionou-se como o candidato da continuidade. Só que, no jargão mineiro, ele teve “sorte”. Sem a pressão do governador e do prefeito, contou com as bênçãos de Deus, a simpatia mineira e a juventude. Que virada!

Por essa rebeldia questionável o marqueteiro do Márcio não esperava. Faltou a ele conhecer a essência mineira. O mineiro não quer se sentir obrigado e forçado a nada. Suas aspirações, no geral, são simples: passar em um concurso público, viver de rendas, bem tranqüilo, e ir ao sítio no final de semana. E, se possível, passar as férias no Espírito Santo. Com mais sorte e mais dinheiro, na Bahia. Uma grande classe média.

O povo mineiro, que adora ver o circo pegar fogo, na sua maioria, é acomodado e defende a máxima de que “política, futebol e religião não se discutem”. Os debates, que nunca representam a ágora, mas a arena da rinha, pouco ajudam. Mas, no fundo, no quieto do coração, o que acontece é bem diferente. Foi aí, na compreensão de como funciona a cabeça de muitos mineiros, que o Jeca Quintão conquistou seus eleitores. Assim, no primeiro turno, tendo a vitória com sabor de derrota do Márcio, mostramos quem é que manda neste quintal.

Contudo, a disputa que vemos agora, no segundo turno, não é de propostas ou de lisura política, mas de quem vai nos representar melhor perante os outros Estados. Seria uma releitura de práticas comuns em vários lares mineiros. Aquilo de guardar o melhor biscoito para a visita, deixar a sala sempre arrumada porque alguém pode chegar, ter um jogo de roupa de cama novo para aquele parente que vai aparecer. Enfim, algo próximo a “ficar bem na fita”. E é aí que o Jeca Quintão corre risco de perder a eleição. Ele é bonitinho, mas continua ordinário. É uma pessoa que conheceu vários países, é de família abastada, freqüenta altas rodas, mas continua sendo Jeca. E, assim como pobre gosta de luxo, e quem gosta de pobreza é intelectual, mineiro gosta é de parecer in. Brincar de jeca é só para o foro íntimo.Tudo o que estamos vendo até agora é, de fato, uma grande brincadeira de política. E tudo pode ser bem diferente nos resultados do segundo turno.

Por exemplos: a juventude do candidato Quintão, que foi muito bem vista no primeiro turno, pode passar a ser percebida como imaturidade. A beleza do candidato pode remeter a uma forte lembrança do ex-Presidente Fernando Collor. Não há muita segurança na dita amizade com os governos estadual e federal. A simploriedade da fala e o uso do mineirês já cansaram, vide as brincadeiras que rodam pela web. O coloquialismo pode desagradar aos que já não são mais tão afeitos ao Presidente Lula. E, como mineiro não gosta muito de mudanças, pode valer a máxima “em time que está ganhando não se mexe”. Por fim, tendo já demonstrando o poder do eleitor mineiro no primeiro turno, agora é hora de votar pra valer. Essas são apenas algumas das desculpas para, mineiramente, mudar o voto de Quintão para Márcio e manter tudo como está.

E a religião? Se não discutimos religião, qual o problema de o candidato ser protestante e ter vice-católico carismático? Na teoria, nenhum. Mas, na prática… Além disso, todo mundo tem um amigo que tem um parente que tem um conhecido que já passou por Ipatinga. E, em Ipatinga, o pai do Leonardo… Só Deus sabe. Até quando vamos perpetuar a máxima de que filho de peixe peixinho é? E comparar Belo Horizonte com Ipatinga é assinar embaixo que somos uma grande cidade interiorana. Ou não? Não dá para aceitar que aqui, com os órgãos de representação que temos e a população mobilizada que formamos, ele vai fazer o que o pai dele supostamente fez por lá. Ou será que o nosso medo é porque sabemos que somos uma grande roça e que não temos poder de mobilização coisa alguma?

E “a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando essa vida…” Viva o Chico! Não o Chico Mineiro. Não o Chico Bento.

A questão é: nos sites da Câmara e da Assembléia – quando não estão fora do ar – não há grave condenação contra o Leonardo em nenhum processo. Mas contra o Márcio há! O Marcos Valério – ex-DNA Propaganda e que, inclusive, estava até ontem preso no mesmo estabelecimento que o seqüestrador de Santo André – confirmou publicamente o envolvimento do Márcio no escândalo do mensalão.

Não dá para aceitar mais a política velha em BH do “rouba, mas faz”, “estupra, mas não mata”, “votar no menos pior”. Só porque o candidato é mais “ajeitado”. Estamos entre o Jeca Quintão e o Márcio Mensalão. Se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come.

Chego à conclusão óbvia, enfim, de que não temos um bom candidato para o segundo turno. Se havia algum no primeiro turno, já era. O que sobrou é lastimável. Solução constitucional: anular a eleição (Lei 4.737/1965 – Código Eleitoral 15/07/1965). Contudo, para mineiro, votar nulo é quase um pecado. Como ninguém quer discutir religião, não dá para fazer política com culpa. Isso demanda mobilização e não há ninguém interessado em sair do seu cantinho. “Roda mundo, roda gigante. Roda moinho, roda peão.”

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