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28 de outubro de 2008

Datafolha: dia de sol aumenta abstenções

por cila schulman

AFP

No Rio de Janeiro, mais de 900 mil eleitores deixaram de comparecer às urnas no segundo turno, cerca de 20% do total do eleitorado carioca

No Rio de Janeiro, mais de 900 mil eleitores deixaram de comparecer às urnas
no segundo turno, cerca de 20% do total do eleitorado carioca

Daniel Milazzo

A média de 27ºC na capital fluminense neste domingo, dia de segundo turno das eleições municipais, foi um convite irresistível ao carioca para enfiar-se em trajes praianos e rumar para a orla. Pois bem, alguns não saíram da areia até as 17h – horário em que se encerrava a votação – e engrossaram a taxa de abstenção, que superou os 20% do eleitorado. Mais de 900 mil eleitores cariocas não compareçam às urnas.

Segundo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, a metereologia de fato interfere na taxa de abstenção:

– Principalmente em cidades litorâneas, como o Rio de Janeiro, quando o dia da eleição é um dia de sol, as abstenções costumam aumentar mesmo. Isso é um dado – afirma.

Em entrevista a Terra Magazine, Paulino revela que as eleições de 2008 tiveram características muito voláteis, cheias de surpresas, representando um desafio de metodologia aos institutos de pesquisa. Para o diretor-geral do Datafolha, hoje o eleitorado decide de forma muito mais individual e independente, pouco apegado a ideologias partidárias.

– O eleitor não tem a menor dúvida em mudar o voto, independente de ideologia, de partido político. O eleitor está pensando muito mais em quem pode resolver os seus problemas cotidianos – ressalta.

Paulino acredita ainda que as eleições evidenciaram a distância existente entre as práticas partidárias e a mentalidade do eleitor, que deu uma lição:

– Os partidos políticos vivem em um mundo bem distante do que é o mundo real do eleitor (…) Acho que nessa eleição o eleitor acabou dando uma lição de discernimento na elaboração do voto.

Na entrevista, o diretor-geral do Datafolha comenta ainda o processo eleitoral no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Leia a íntegra a seguir.

Terra Magazine – Qual o balanço que o senhor faz destas eleições?
Mauro Paulino –
Surpresa é o que não faltou, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Do ponto de vista dos institutos de pesquisa, foi um enorme desafio. A eleição municipal em si já é um grande desafio para os institutos porque tem uma dinâmica muito volátil. E esta, em especial, mostrou principalmente nas três grandes cidades – São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte – mudanças muito expressivas, o que desafiou a metodologia dos institutos.

A pesquisa baliza o eleitorado?
Sim, é o único instrumento que permite avaliar como se desenvolve o processo eleitoral. Não há porque negar que pesquisa influencia o eleitor. Influencia porque é uma informação cada vez mais importante e levada em conta, divulgada amplamente pelos principais veículos de comunicação. O eleitor avalia também o seu voto a partir dos resultados de pesquisa, e isso aconteceu, por exemplo, em Belo Horizonte.

Como?
Foi muito interessante acompanhar a evolução das pesquisas em Belo Horizonte porque no primeiro turno, antes do início da campanha eleitoral, Jô Moraes (PCdoB) apareceu na frente. Logo após o início da campanha, o Márcio Lacerda (PSB) subiu de 9% para 20%. Em seguida veio o Ibope mostrando 40%. Foi uma ascensão rápida por conta da informação que o eleitor recebeu a partir do horário eleitoral gratuito, sobre quem eram os apoios ao candidato Lacerda. Mais adiante surgiu o Leonardo Quintão com uma campanha na TV e um poder de comunicação irresistível para o eleitorado, falando de forma coloquial, passando confiança para o eleitor, que fez com que o eleitor migrasse para ele. O Datafolha mostrou essa ascensão do Quintão e mostrou essa tendência até a última pesquisa antes do primeiro turno. E no segundo turno, na véspera das eleições, o Datafolha apontava Lacerda eleito por larga vantagem.

As últimas pesquisas divulgadas antes da votação em geral estiveram muito próximas do que as urnas mostraram.
De fato, no segundo turno, os resultados das pesquisas feitas na véspera ficaram muito próximos do resultado das urnas. Isso não significa que os institutos acertaram mais no segundo turno do que no primeiro. Significa que houve menos movimento (do eleitorado) entre o último dia de campo e o dia da eleição. No segundo turno o eleitor vai mais decidido à urna. O que muitas vezes é visto como erro de pesquisa, porque os resultados da véspera não dão o número exato da urna, mostra na verdade que o eleitor tem se decidido cada vez mais próximo à eleição.

O eleitorado brasileiro tem essa característica de decidir muito em cima da hora?
Cada vez mais. Em eleições municipais existe um contingente enorme de eleitores que espera até o último momento para decidir o voto. Dependendo de como ele lê os debates, as pesquisas, e até os resultados de pesquisas, ele muda o voto. O eleitor não tem a menor dúvida em mudar o voto, independente de ideologia, de partido político. O eleitor está pensando muito mais em quem pode resolver os seus problemas cotidianos.

Há então um forte descolamento do eleitor à figura de um partido? O senhor acha que a escolha é cada vez mais personalista?
Pelo menos para escolher o prefeito, o eleitor não leva tanto em conta nem os partidos, nem as ideologias e nem os apoios. Os apoios ajudam, a simpatia pelo partido ajuda, mas se existe um candidato que não é do seu partido e também não é apoiado por um político que você gosta, o eleitor mesmo assim vota naquele candidato, porque acha que ele vai resolver o problema da escola do filho, ou do asfaltamento da rua em frente à sua casa, por exemplo. O eleitor decide de forma cada vez mais individual e independente.

Isso põe um desafio para os partidos políticos?
Os partidos políticos vivem em um mundo bem distante do que é o mundo real do eleitor. Esse cotidiano dos políticos e dos partidos de buscar coligações, de acordos, de disputa por verba de campanha, isso está muito distante do que de fato decide eleições, que é o cotidiano do eleitor. Principalmente em eleições municipais. Acho que nessa eleição o eleitor acabou dando uma lição de discernimento na elaboração do voto.

O caso de São Paulo é emblemático? Pode-se considerar que foi uma virada?
Não. São Paulo não chegou a ser uma virada. Foi uma surpresa para todo mundo, inclusive para quem estava fazendo as campanhas. As próprias projeções das equipes de Marta e Kassab não previam o Kassab à frente no primeiro turno. De fato, foi uma surpresa. Ele conseguiu um movimento de votos a seu favor nos últimos dias, e inclusive no dia da eleição, maior do que se previa. Mas as curvas das pesquisas mostravam o Kassab numa ascensão contínua desde o início da campanha eleitoral. Foi surpresa, mas não deixou de ser previsto.

No Rio de Janeiro parecia difícil prever o vencedor. A que o senhor atribui essa disputa tão acirrada e esta margem tão pequena de votos que deu a vitória ao candidato Eduardo Paes (PMDB) para a prefeitura do Rio de Janeiro?
O Rio de Janeiro ficou completamente dividido entre Gabeira e Paes. Zona Oeste e zona Norte do Rio ficaram com Paes, enquanto zona Sul e centro, com Gabeira. Nessa disputa acirradíssima, o Paes conseguiu uma ligeira vantagem até por alguns erros de campanha do Gabeira no final.

Quais?
O eleitor do Gabeira, um eleitor de classe média, o carioca que gosta de novidade, que gosta de ousar, uma característica deste eleitor carioca, pode ter se decepcionado com Gabeira posando numa foto recebendo a benção de um pastor. Isso pode ter passado uma imagem de pouca autenticidade, que era uma das coisas mais valorizadas por esse eleitor do Gabeira. Talvez se ele tivesse sido autêntico até o final, quem sabe ele tivesse conquistado essa pequena margem de voto que ele precisaria.

55 mil votos…
Na verdade, é metade disso, pois ele tiraria votos do outro candidato.

O que explica as mais de 927 mil abstenções no Rio?
Cada vez mais pessoas descobrem que justificar o voto não é um bicho de sete cabeças, que é tão simples quanto votar. Não acredito que a abstenção teve uma influência negativa, como disse o César Maia. Ele mesmo, que lançou essa questão, previa que a abstenção favoreceria o Gabeira. E não foi o que se confirmou. Principalmente em cidades litorâneas, como o Rio de Janeiro, quando o dia da eleição é um dia de sol, as abstenções costumam aumentar mesmo. Isso é um dado. Ainda mais estimulado por um feriado prolongado para o funcionalismo público, isso certamente ajudou a aumentar a abstenção.

Altos índices de abstenção não trazem dificuldades para os institutos de pesquisa?
A pesquisa leva em conta as abstenções, porque só entrevista aqueles que dizem que pretendem votar. É um filtro. O eleitor que diz que não pretende votar, ele não é entrevistado. É óbvio que as pesquisas levam em conta as abstenções e é óbvio que elas tomam os cuidados necessários.

Terra Magazine

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