Pular para o conteúdo

25 de março de 2009

1

Homenagem a Geraldo Walter, o publicitário que revolucionou a comunicação política no Brasil

por cila schulman

* Texto distribuído hoje pelo jornalista Raul Bastos, da DM9:

geraldo-1O publicitário Geraldo Walter, um dos profissionais mais conceituados e respeitados da propaganda brasileira será homenageado no próximo sábado, dia 28, por seus amigos, familiares e companheiros. A homenagem ao publicitário baiano que morreu aos 41 anos, vítima de câncer, em março de 1998, se dará na reinauguração da praça que leva seu nome, no Rio Vermelho, em Salvador. A Praça Geraldo Walter que foi inaugurada, em 1999, estava abandonada e passou por uma reforma que foi bancada pelos amigos, familiares e companheiros, que lá farão, no sábado, uma celebração de sua memória.

Foi nas proximidades dessa praça, na rua Almirante Barroso, no final dos anos 70, que Geraldo começou sua carreira na agência D&E. Seus quase 20 anos de trabalho foi marcante e vitorioso. Geraldo Walter é dos publicitários responsáveis pela renovação não só da comunicação política, como da comunicação pública e da comunicação de serviços do País.

Dele Nizan Guanaes tem a lembrança de um traço característico: “O Geraldo sempre foi muito seguro, isto é uma coisa mágica nele. Ele sempre passava segurança para as pessoas. E era fantástico ter um comandante naquele corpanzil, aquele menino, aquela alegria, aquela explosão, aquela força, aquela ira. Tudo junto.”

O currículo profissional de Geraldo é excepcional e invejável. Fez quatro campanhas presidenciais. Três no Brasil e uma no exterior. Seus candidatos saíram vitoirosos em três delas.

geraldo-walter-e-rui-rodrigues-1994Foi o coordenador e um dos comandantes da estratégia de comunicação da campanha de eleição e reeleição do presidente Fernando Henrique, ambas vitoriosas no 1º turno.

“O Geraldo tinha uma especificidade, ele fazia o pessoal botar o pé no chão, tinha sensibilidade política. Porque não basta você ter uma boa idéia, mas serve ou não serve. Ele tinha noção do processo político, porque não é fácil você pegar os produtores intelectuais de programa de idéias, os produtores de comunicação e dar sensibilidade política e aterrissar, e fazer a coisa andar. É muito difícil. Isso realmente era o Geraldo. O Geraldo era muito mais capaz de entender a realidade,” lembra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Geraldo Walter, antes disso em 1989 trabalhou da campanha do Dr. Ulysses Guimarães à presidência da República.

A ELEIÇÃO DE ANGOLA

geraldo-7

Nos idos dos anos 90, na África, participou de uma verdadeira saga comandando uma equipe de publicitários e jornalistas brasileiros que trabalharam na primeira campanha eleitoral de Angola, em 1992, que elegeu, José Eduardo dos Santos, o primeiro presidente daquele país. “O jornal americano Washington Post registrou às vésperas da pleito de Angola, que já havia um vencedor, independentemente do resultado das eleições, e que era a publicidade brasileira, era o marketing político brasileiro, e o que ele tinha alcançado lá. Foi uma vitória do Geraldão,” lembra Ricardo Noblat que foi um dos coordenadores da campanha em Angola.

Rui Rodrigues, hoje na direção da MPM Propaganda e companheiro de Geraldo nessa empreitada diz: “Depois da campanha na África tudo mudou. A gente costumava dizer que nunca mais seríamos os mesmos depois de passar por Angola. E nem fomos mesmo. Aquilo também foi uma troca. Ano retrasado eu voltei a Angola para um eventual projeto e lá me encontrei com uma pessoa que era o general Kopelipa com quem nos relacionamos. E ele relembrou todos os episódios com o Geraldo, com a Ana Maria, com o Nelson, com um monte de gente que trabalhou naquela altura. E ele realmente ficou emocionado, eu recebi aquele abraço não só em mim, mas em todos nós, porque a gente, como ele, nós fizemos história.”

Para o professor Marcus Figueiredo: “a jornada da África foi para todos nós que estávamos lá uma experiência. Um momento extraordinário para a história daquele país. Recebemos a incumbência de realizar a primeira manifestação democrática de Angola que é um país secular, sofrido de anos e anos de colonialismo e guerra colonial de guerra da independência e de guerras entre divisões políticas no país”.

O COMEÇO EM SALVADOR

campanha-de-waldir-pires-1986Geraldo Walter iniciou sua carreira na comunicação política em 1986, como coordenador da vitoriosa campanha do Dr. Waldir Pires ao governo da Bahia, até hoje considerada um marco na maneira de conduzir comunicação e marketing em campanhas eleitorais no Brasil. Essa campanha que é lembrada até hoje possibilitou a D&E ganhar o Prêmio Colunistas de 1987. Sérgio Amado, então diretor da D&E afirma que: “A conquista com a campanha “A Bahia vai mudar” acabou tendo um significado especial: ela se deu numa disputa difícil, com dois dos maiores anunciantes nacionais: a Coca-Cola, ficando a D&E com a medalha de ouro, um feito inédito.”

A participação de Geraldo Walter foi fundamental na campanha a governador Waldir Pires, que até hoje tem até hoje uma lembrança de carinho e respeito: “A experiência que eu tenho da convivência com Geraldo é da convivência de um homem que se dá inteiramente na realização da sua tarefa profissional para os objetivos de uma construção política que é o que justifica a política. Fora da qual a Política perde sua dignidade e consequentemente perde a sua capacidade de influenciar o destino da população e da civilização.”

AS CINCO VITÓRIAS DE 1994

Geraldo Walter tem no seu currículo, também vitoriosas campanhas eleitorais em vários estados e cidades brasileiras. Como, as cinco campanhas que coordenou simultaneamente, em 1994 e que elegeram os governadores, Antonio Britto no Rio Grande do Sul, Jaime Lerner no Paraná, Marcello Alencar no Rio de Janeiro, Tasso Jereissati no Ceará, todas elas ao mesmo tempo em que comandava a campanha vitoriosa de Fernando Henrique à presidência. Naquele ano, portanto, ao lado de Nizan Guanaes venceu cinco campanhas simultaneamente.

O professor de ciência política Marcus Figueiredo, que em todas as campanhas de Geraldo Walter, fazia análise e interpretação de pesquisas lembra que: “Quando terminou o período eleitoral 1994 o resultado foi extraordinário do ponto de vista aqui da DM9 e das campanhas nas quais o Geraldo tinha a coordenação estratégica, digamos assim, da comunicação. Foram as campanhas do Fernando Henrique, Jaime Lerner, o Britto, o Tasso Jereissati e o Marcello Alencar. A revista Marketing citava um número, alguns vários milhões de votos, ou seja, Geraldo e a DM9 e o Nizan eram os homens de 40 e tantos milhões de votos. Então essa foi a grande experiência, o auge do sucesso da concepção e da maneira de como lidar com a comunicação política.”

Esse feito inédito de Geraldo Walter, Nizan Guanaes e seus companheiros mereceu uma edição especial da revista Marketing cujo título era “Geraldo Walter: O publicitário de 44 milhões de votos”.

geraldo-walter-serra-e-equipe-em-1996Dois anos depois, em 1996, em São Paulo, Geraldo Walter foi convocado para fazer a campanha de José Serra à prefeitura. As condições políticas eram adversas e Serra foi derrotado. O atual governador de São Paulo se recorda que foi uma campanha dura e difícil desde o começo: “Eu saí do governo federal para me candidatar a prefeito. Mas logo, logo a parada revelou-se muito difícil. Por que havia uma polarização PT de um lado e Maluf do outro. E além, disso desgaste do governo do Estado que era do meu partido e mesmo do governo federal embora as coisas fossem bem havia um problema sempre permanente de desemprego, isto e aquilo. Nesses momentos é que a coisa se torna mais tensa mais complicada e o Geraldão foi pra mim um exemplo de lealdade e combatividade não apenas porque era um profissional, mas também porque era alguém que a gente podia contar como amigo. A partir daí que se desenvolveu uma relação de amizade porque ele era um homem que bancava o trabalho e a lealdade.”

A CRIAÇÃO DA DM9-INSTITUCIONAL

A história de Geraldo Walter em São Paulo tinha começou em 1994. Ele cria com Rui Rodrigues e José Roberto Berni uma empresa de comunicação política, a CPP. Em seguida, convidado por Nizan Guanaes e Guga Valente, cria a DM9 Institucional. Dois anos após, diante do sucesso da DM9 Institucional, se torna sócio de Nizan e Guga na própria DM9.

 “A Institucional começou a ganhar tal importância, que em 1996 ou 1997 chegamos à conclusão que esse negócio ficou tão grande que não faria mais sentido ter esse negócio separado, vamos juntar e fazer uma coisa só. A partir daí, houve uma fusão das empresas, e o Geraldo, que até então só participava do lado institucional, a partir desse momento começou a participar do negócio como um todo,” conta Guga Valente, hoje diretor do Grupo ABC.

O REAL

Na DI, como era conhecida a DM9 Institucional, desenvolveu ao lado de Nizan Guanaes e Sérgio Valente e outros companheiros as estratégias e as campanhas que garantiram a defesa da estabilidade econômica, a defesa do Real.

Sérgio Valente atual presidente da DM9 e companheiro de Geraldo nessa empreitada atribui a Geraldão um papel fundamental:

“Acho que nada deveu-se a só uma ação, mas eu não tenho a menor dúvida de que a grande contribuição que a comunicação eu à estabilidade econômica foi capitaneada pelo Geraldão,” diz Sérgio Valente.

Opinião avalizada pelo ex-presidente Fernando Henrique: “O Geraldão sempre cuidou da celebração do Real. Um ano do Real, dois anos do Real, três anos do Real, reavivar, conscientizar a todos da importância da estabilidade. Na verdade, o Real é a plataforma, é a base, o fundamento, o que vale mesmo é melhorar a educação, a renda, a vida das pessoas. Aí o Geraldão foi importante mais uma vez.”

PRIVATIZAÇÃO

É a partir daí também que surgem as grandes campanhas de mobilização social do país, sustentadas por ações de comunicação e propaganda comandadas por Geraldo Walter e Nizan Guanaes.

 “Nós da DM9 fizemos muitas coisas. Fizemos, além das campanhas em defesa do Real, o Acorda Brasil, Está na hora da Escola, fizemos todas as campanhas de prevenção da Saúde, a Dona Saúde vai entrar na sua casa, fizemos todas as campanhas de vacinação, as campanhas mercadológicas dos Correios. Fizemos uma coisa que foi um divisor de águas na minha vida profissional, que foi o Projeto de Privatização das Telecomunicações. Um projeto de comunicação capitaneado por Geraldo, junto com o Sérgio Motta, o que tinha uma participação muito grande do Nizan,” conta Sérgio Valente.

Também é dessa época a campanha pela privatização da telefonia no país, que Geraldo, mesmo doente fez o planejamento inicial.

José Roberto Berni também trabalhou nessa jornada: “o Geraldo já estava  doente, mas ele comandou o start do processo de privatização, que depois eu toquei, sob o comando do Nizan, com o Serginho, com o Luiz Aurélio, com a Maristela, com o Raul, com a Fátima Turci, que fez jornalismo. Quando a gente começou este trabalho, dois terços da população eram contra; quando a gente terminou, dois terços eram a favor.”

A CAMPANHA DA REELEIÇÃO

Foi na mesma época em que, mesmo já muito doente, que Geraldo fez questão de pegar um avião e participar da primeira reunião do planejamento estratégico da campanha de reeleição do presidente Fernando Henrique. Dela participaram, o próprio presidente, Nizan Guanaes e Sérgio Motta, o Serjão, com quem Geraldo Walter tinha grande afinidade.

“No início da campanha da reeleição ele foi atropelado pela doença. Então, ele foi chamando os companheiros que conviveram com ele, os amigos, as pessoas de confiança. Olha, a liderança é do Nizan, vocês tem que marchar em torno do Nizan, tem que fazer esta campanha com a mesma pegada, com a mesma vontade. Cada um de nós que fazia parte da campanha, estava honrando um aspecto profissional e também um compromisso com o Geraldo”, relembra Claudio Barreto, que fez campanhas com Geraldo desde 1986.

“Durante a campanha eu tenho certeza que ele nos acompanhou muito” – diz Nizan. “Eu sentia isto. Eu sentia tranqüilidade no meu medo. E a equipe dele muito coesa, nós ficamos todos muito solidários. Quer dizer, não era uma campanha era uma missão havia uma coisa de honrar o Geraldo. De fazer uma coisa que fosse digna dele, ninguém queria fazer feio. Acho que todos nós que estávamos ali pelo candidato evidentemente por que acreditamos nele, mas também pelo Geraldo. Pela inteireza com que ele sempre se conduziu. Quer dizer, nós tivemos sempre uma diretriz de apoiarmos coisas que acreditamos. Acho que é bonito na vida do Geraldo este fio condutor.”

“Depois que o Geraldo morreu, o Geraldão como nós chamávamos, aquele homem imenso e tal, eu nunca mais encontrei alguém assim”, lamenta o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Essa que é a verdade. Uma pessoa fosse capaz de pegar o processo e transformar numa comunicação tendo relação com o que está acontecendo na vida, nunca mais vi, deve haver, mas eu não conheço.”

No dia 14 de março de 1998, Geraldo Walter, vítima de câncer, morre em Salvador.

 

1 Comentário Comente
  1. maio 19 2009

    Boa noite, sou baiano, publicitário e gostaria de saber coo faço para obter o jingle da campanha “A Bahia Vaia Mudar”
    de Governador Waldir Pires

    Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Observação: HTML é permitido. Seu endereço de e-mail nunca será publicado.

Assinar os comentários

%d blogueiros gostam disto: