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27 de março de 2009

Geraldão, um brinde à Vida

por cila schulman

Sexta, 27 de março de 2009, 07h52  Atualizada às 08h55

Divulgação

Geraldão na campanha de Waldir Pires, em 1986: o riso diante da vida

Geraldão na campanha de Waldir Pires, em 1986: o riso diante da vida

Bob Fernandes

Amanhã, sábado 28, família e amigos se reúnem numa praça no Rio Vermelho, em Salvador, para celebrar a memória de Geraldo Walter de Souza Filho, o Geraldão. Aos 41 anos, em 1998, o publicitário Geraldo se foi. Muito se disse e se dirá daquele que é tido e havido como o grande nome do marketing político no Brasil. Do meu amigo que partiu tão cedo, no 14 de Março, data em que nasceu meu pai, Henrique, pouco direi do talento e do sucesso profissional; muitos dos que amanhã irão festejar sua história na praça Geraldo Walter estão bem mais capacitados para recordar esse belo caminho da sua vida.

(Para saber mais sobre sua trajetória profissional, ler neste link).

Digo, direi aqui, do amigo. Do amigo com um carisma, com uma capacidade de liderança pessoal e profissional rara. Tanta que despertou, desperta até hoje, uma onda de ciúme entre quem com ele conviveu. Ciúme não apenas entre elas. Também eles se batem para saber, dizer, provar quem foi mais seu amigo, de quem ele foi mais amigo. Não me atrevo a tanto. Apenas recordo e festejo o tempo que viveu um queridíssimo amigo, daqueles que marcam nossas vidas com seu brilho.

Geraldo Walter de Souza Filho. Geraldão. O Big. O Biggest. Muitas as formas superlativas para chamá-lo carinhosamente. Antes dele conheci Guta, a mana. Nas manhãs e tardes, verões e verões do Porto da Barra, com Nem, Isinha, Kiko, com Clarinha…

Com aquele tamanhão todo não havia como não percebê-lo nas ruas e noites de Salvador, mas o primeiro contato objetivo foi em Jequié. Começo da campanha de Waldir Pires para o governo da Bahia, a guerra nada santa contra ACM e sua tropa, idos de 1986.

Waldir caminha em meio ao povo, ao lado de Jutahy Magalhães, o pai. Ao lado deles, meio corpo acima da multidão, Geraldão. Numa salinha apertada militantes históricos fustigam Jutahy, aliado de Antonio Carlos Magalhães num outro tempo. Jutahy, sentado na beira de uma mesa, responde com toda sua bonomia:
– Eu sou Paulo na estrada de Damasco…

A gargalhada de Geraldão sacode a sala.

Recém-desembarcado em Salvador, vindo de Brasília para testemunhar e escrever para o Jornal do Brasil sobre a nada santa guerra, percebo ali quem é o marqueteiro – como chamávamos – de Waldir, quem eram os caras que enfrentariam Duda Mendonça na campanha de ACM/Josaphat Marinho. Geraldão e a infantaria da D&E, outros queridos amigos e amigas. Quatro meses inesquecíveis.

Bahia adentro, a espera do Messias. Comícios às três, quatro, cinco horas da manhã, de lugarejo em lugarejo a multidão à espera de Waldir, o locutor a incensar ainda mais…:
-… Ele vai chegar…Ele está chegando…Ele…

No QG da campanha testemunhei viradas e virotes, o companheirismo mas também broncas monumentais, o talento e bom humor na construção de cada peça, cada programa eleitoral. Ali, ficamos amigos. Eu, até o final, um dos poucos sem relação também de trabalho, sem laços também profissionais.

Salvador, Brasília, São Paulo, Luanda, Washington… Sempre muitíssimo bem informado, sempre querendo saber mais. E muito bom humor. E muito rolo no departamento que comanda a vida.

Uma tarde, muitas confidências depois de arrastado almoço no Massimo, em São Paulo, provoquei:
– …mas Big, não a conheço direito mas essa mulher é dureza, vai querer dar um nó em você, a história dela já é a própria encrenca…

A resposta, confesso, me surpreendeu:
– Por isso mesmo…assim é que é bom…

Brasília. Gol de Maurício, ponta direita. Contra o Flamengo, no Maracanã, Botafogo campeão depois de 21 anos. Na alegria alvinegra quase detonamos um quarto do Hotel Nacional, onde gostava de se hospedar.

Campanha de Waldir e Ulysses Guimarães…”Bote fé no velhinho, o velhinho é demais…” Jornada dolorosa para o velho líder, mas divertidíssima pelos bastidores, pela demorada permanência do amigo em Brasília.

Eleição em Angola, por onde passei a caminho das guerras em Ruanda e Somália. O horror, apesar do armistício MPLA-UNITA, mas também a farra nos bastidores, a brasileirada, a baianada em Luanda em meio à paz meia boca.

No comando executivo da campanha, outra vez Geraldão, o Big. Ali, dele ouvi queixas sobre o ego, a vaidade alheia, e histórias deliciosas sobre os rolos de sempre no departamento que comanda, deveria comandar, a vida.

Num cantinho no QG da campanha – um universo de Marlboro – se davam as tentativas e tratativas, múltiplas as tentativas em razão da enorme desproporção entre a testosterona e a progesterona naquela porção verde-amarela de Luanda. Anos depois ele ainda gargalharia com o batismo dado àquele cantinho do QG:
– Love Corner.

Finda a campanha, reiniciada a guerra, o recebemos em Washington. Geraldão, com a franqueza habitual, disse a mim e a Ana:
– Dou Washington por vista. Vamos sair de carro, olhar as ruas, mas não quero visitar nada, ver museu algum, monumento nenhum. Quero ficar em casa, sair pra comer, dormir, e conversar.

Assim foi feito.

De volta ao Brasil, ele em São Paulo, em sociedade com Nizan. Campanha de FHC. O talento, único, de sempre, a tropa de sempre, nossas conversas, jantares e almoços, como sempre. Os rolos, como sempre.

Fim do namoro com uma prima minha em meio ao começo de namoro com outra prima. Cutuquei:
– Rapaz, para de rondar minha família…

Até hoje ecoa a gargalhada.

Outra eleição. Em São Paulo. Nessa, profunda irritação com o candidato:
– Nesse cara, eu que faço a campanha não voto, o motorista não vota, a secretária não vota…

Sem bom humor não há quem agüente.

De repente, numa tarde-noite, um telefonema:
– Preciso te ver…é urgente, urgente mesmo…

Conversa lá em casa. O que ele queria, o que sentia, o quê e como deveria fazer. Como seria o futuro? Ele ficara sabendo poucas horas antes. Ia ser pai.

O Destino. Uma decisão dos deuses. Ele se foi, mas aí está nosso amado e querido Felipe. Seu filho com Cila.

Numa noite, o cansaço extremo num jantar. Quase dormiu à mesa, Ana estranhou. Pouco dias depois, num almoço, o comentário. Sem preocupação alguma:
– Vou fazer um exame amanhã, acho que é alguma coisa de divertículo, alguma bobagem…

Não era uma bobagem. Me contou por telefone.

Na última vez que nos vimos, fez questão de dar uma carona. Seu amigo Ferreira na direção. Já magro, sereno, mas nos olhos também a vontade de não ir, de quem sabe, porque soube viver, que a vida é bela.

Na janela do carro, na Avenida Brasil, o adeus.

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