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10 de março de 2010

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Saudades da Fani Lerner

por cila schulman

Quando a Fani cumpriu sua missão nessa vida, eu bem que tentei. Comecei a escrever aqui sobre a luta dela pela causa da criança, depois sobre a nossa amizade, depois sobre a grande mulher; sobre a  parceria dela com o Jaime; sobre a mãe das minhas amigas Andréa e Ilana; sobre a amiga da minha mãe; sobre a avó que tratava meu Felipe com tanto carinho; sobre a primeira-dama exemplar; sobre a guerreira que me inspirava…nada deu certo. Eu travei de emoção e de tanto não conseguir, simplesmente abandonei o blog.

Pois é, segunda passada a Fani foi mais do que justamente homenageada em Brasília pelo Dia da Mulher. E o amigo deputado Eduardo Sciarra falou bonito. Disse muito do que eu gostaria de dizer e não consegui. Valeu, Sciarra. Viva Fani!

Pronunciamento em homenagem à memória de FANI LERNER

Brasília 09/03/2010

“Uma mulher que tinha pressa.

E que, apesar da pressa,  carregava de empenho o que fazia.

Empenho, entusiasmo,  amor.

Fani Lerner começou cedo sua obra.

Primeiro, precisou  conciliar os estudos com o trabalho nos balcões de “A Moderna”, a loja de roupas femininas, que a mãe, viúva com apenas 34 anos, abrira com apoio dos irmãos para poder sustentar as duas filhas.

Fani tinha só quatro anos quando o pai morreu.

Judeus poloneses que chegaram ao Brasil fugindo das perseguições nazistas, os pais viam no comércio uma das poucas possibilidades de sobrevivência, como já faziam outras famílias vindas nas mesmas condições.

Mas o comércio logo cedeu lugar à verdadeira vocação: o trabalho  com crianças.

É assim que, aos 18 anos, já era professora concursada, todos os dias à bordo de um ônibus para alcançar uma escola de periferia.

Aos 26, já mãe de duas meninas, torna-se a Primeira Dama de Curitiba.

O marido , o arquiteto Jaime Lerner, então com apenas 33 anos, iniciava ali uma profunda transformação da cidade, que o projetaria como um dos maiores urbanistas do mundo e um dos brasileiros mais respeitados no exterior.

Fani logo avisou que Primeira Dama não era profissão e que, aos ritos solenes do poder, preferia voltar-se às crianças, sobretudo às mais carentes, como as da vila onde lecionara anos antes.

Era o ano de 1 971 e Curitiba, a exemplo da maioria das capitais e das  grandes cidades, sofria o impacto do êxodo rural que marcou o Brasil daqueles anos e que até hoje se projeta nas carências das grandes periferias.

A jovem mãe e educadora então se envolveu com a assistência social e começou a semear um trabalho modelar que, anos mais tarde, se estenderia por todo o Estado do Paraná.

Creches e programas voltados à criança, ao adolescente e à família marcaram a partir dali  a sua vida.

Nos 38 anos seguintes, tendo o marido assumido por mais duas vezes a Prefeitura da capital e, por duas vezes o Governo do Paraná, Fani Lerner comandou a implantação quase 700 creches: 170 delas em Curitiba, as demais no interior do Estado.

O levantamento é de amigas que trabalharam com ela, pois Fani nunca parava para contar os feitos de ontem, sempre mais interessada no próximo projeto.

Foi com este entusiasmo que, em 1 989, criou o Vale Creche, pelo qual as empresas compram vagas para os filhos de seus funcionários nas creches próximas de suas moradias.

“Da Rua para a Escola” , “Programa para a Infância e Adolescência” o projeto Piá, que no Sul é sinônimo de garoto também fazem parte do glossário do trabalho de Fani Lerner.

Milhares de crianças de Curitiba e de cada uma das 399 cidades do Paraná se beneficiaram destes programas, garantindo um futuro mais promissor.

Fani tinha pressa.

Ia logo à essência, não permitindo que a teorização – tão comum nas questões sociais e freqüentemente tão paralisante –  inviabilizasse o que ela enxergava com a clareza de mãe e educadora.

Com essência e simplicidade chegou tão longe.

Mas havia também a simpatia, que cativava e arregimentava sempre mais voluntárias para o trabalho.

Pela seriedade do trabalho, pela discrição, pela elegância da simplicidade, Fani se impôs como a pessoa boa, devotada à causa humana, que angariou o respeito de todos, pairando acima das disputadas políticas.

Uma liderança suave, que se impunha pelo exemplo e contagiava pelo entusiasmo.

Quando a doença a surpreendeu, ela tinha apenas 50 anos.

Em vez de abater-se, redobrou o trabalho.

E lutou por mais 14 anos, intercalando internações, cirurgias e o sempre pesado tratamento com o renovado exemplo da fé na renovação.

Em 2003  foi a ganhadora do prêmio Kellogg’s, entregue em Columbus, Ohio, uma espécie de prêmio Nobel em reconhecimento aos que fazem muito pela infância ao redor do mundo.

O dinheiro do prêmio ela logo converteu em novo projeto , um centro de estimulação infantil voltado à crianças de  três a 14 anos, que terão acesso gratuito.

Essa era a Fani Lerner que nos deixou em maio passado.

Um fabulosa empreendedora social, que nos lega um valioso exemplo e também um alerta acerca do quanto ainda devemos, em todo o País, à  infância.

Respeitar a infância, investir nela.

É o que nos ensina o trabalho de Fani.

Como ela gostava de lembrar, nada mais define o futuro de uma Nação que o cuidados dispensado às crianças.

Certamente por isso ela tinha tanta pressa.

Obrigado.

Dep. Eduardo Sciarra (DEM-PR)

6 Comentários Comente
  1. beth klein
    mar 11 2010

    Bonito Cila!
    Saudades mesmo…..de respeito, atenção, carinho, inteligencia, decente e honestidade.
    Acho que é um tempo que não volta mais.

    Responder
    • cila schulman
      mar 11 2010

      Você bem sabe, querida Beth. O importante é a gente continuar vivendo com essa inspiração. Beijo enorme.

      Responder
  2. ilana
    mar 12 2010

    Cila querida!

    Como você, não sei o que escrever pra agradecer o carinho de todos e do Eduardo. Obrigado por espalhar pelo mundo um pouco do que ela foi.
    Beijos,
    Ilana

    Responder
    • cila schulman
      mar 12 2010

      Ilana, e quem diria que a gente perderia o dom da palavra nessa hora? Beijo enorme.

      Responder
  3. Querida Cila,
    tivemos a sorte, o privilégio de estarmos sempre próximas da Fani, que nunca vai sair dos nossos corações. Amiga e estrela eterna.
    Beijos, Cila.

    Responder
    • cila schulman
      mar 12 2010

      Beijos, Aninha!

      Responder

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