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ENTRE O LONGO PASSADO E O CURTO FUTURO

Paulo Fábio Dantas Neto[1]

Numa reflexão sobre o tempo e suas conexões com a história e a política, Hannah Arendt sugere que o presente é o momento e a posição criados pelo homem ao inserir-se no tempo para preencher uma lacuna entre o passado e o futuro. O peso da tradição e a tirania dos projetos acalentados atuariam em paralelo, e simultaneamente, para constranger o agir humano, ao qual não restaria, para manter sua condição criadora, outra chance senão a de encontrar uma diagonal pela qual pudesse saltar por cima da linha de embate entre passado e futuro, embate que é um dilema kafkiano. Essa diagonal é a condição da intervenção do homem no tempo histórico a partir de uma perspectiva verdadeiramente política, isto é, criadora do presente.
A lembrança do belíssimo texto da filósofa alemã veio a propósito da atitude política assumida pelo Governador Jacques Wagner na convenção do PMDB de Salvador que homologou a candidatura do atual prefeito à reeleição. Convenço-me de que o governador ainda não achou a sua diagonal. Com olhos presos ao retrovisor e pensamento fixo no horizonte de 2010 traçou uma linha reta para atropelar o presente e tentar repetir, em 2008, o plebiscito que há quatro anos elegeu João Henrique.
O desejo de perfilar, indiferenciadamente, os candidatos da “base” do governo contra ACM Neto reitera o bordão de 2004, quando os candidatos da então oposição confundiram-se, em tom pastel, contra César Borges. Mas, para além desse anacronismo que contradiz o discurso de renovação da política baiana, é preciso ver que na intervenção do governador também houve a preocupação habitual de impedir que fluam, antes de 2010, o conflito próprio da transição que marca a elite política baiana e a pluralização política que dele decorreria. A “necessidade histórica” da reeleição levanta-se como sombra a nublar as identidades políticas. Ao lado dela, outra necessidade “histórica”, também datada em 2010: alimentar regionalmente o centauro de duas cabeças e corpo difuso que se tornou a “base” do Governo Lula.
Pode-se contra-argumentar, com alguma razão, que o zelo do Governador para com seus aliados da situação municipal da capital deve-se a preocupações do presente com a “governabilidade” do Estado, em destaque a correlação de forças na Assembléia Legislativa. Mas tal contra-argumento é limitado quando se sabe que, na capital, numa queda de braço entre PT e PMDB, ao segundo seria mais seriamente avisado que se comedisse, pois não precisa muito para saber que o ministro Geddel depende mais do governo federal do que dependem dele ambos os governos (federal e estadual) juntos. Não é principalmente de governabilidade que se trata, mas de alianças eleitorais futuras.
O presente em Salvador é a decisão sobre o destino do seu governo. Este o conteúdo político substantivo, se pensamos política como coisa pública, não como arena de um jogo corporativo. O que têm a nos dizer as elites políticas sobre isso? Será estimulante trocar o cenário de uma disputa aberta, no primeiro turno, entre quatro campos reais da política da capital por um plebiscito que amontoa três desses campos num lado só em nome da volta a uma contenda maniqueísta que se teima em não enterrar? O eleitorado soteropolitano, faminto de urna, será vítima, outra vez, de uma blitz dietética sobre o seu cardápio político-eleitoral?
Espera-se mais do governador que tomou a si a missão renovadora. Não se questiona o seu comparecimento à convenção do PMDB, mas o seu discurso. Em vez de declarações sobre uma comunhão de vísceras entre si e o grupo anfitrião bastaria uma sóbria exposição do óbvio: o governador tem responsabilidade de não hostilizar aliados nem permitir que a máquina do governo seja instrumentalizada por qualquer candidatura. Mas também tem partido e com ele votará, conforme a grande política. Em outras palavras, bastaria que o governador fizesse suas as recentes palavras do próprio Ministro Geddel e lembrasse aos incautos que entre o PMDB e o governo petista há aliança, não fusão. Mas dizendo o que disse, sente-se cheiro de pequena política rarefazendo o ar. Faz o dever de casa para a sucessão de Lula e para a sua própria reeleição. Mas que será de sua liderança política no pós-Lula, quando assentar a poeira de agora? É imenso o risco de pequenas habilidades de hoje serem deitadas ao chão, com a poeira.
O parto a fórceps da candidatura do deputado Walter Pinheiro é filha desse embate entre passado e futuro. Seu discurso é esvaziado pelo do Governador. Pois que sentido haverá nessa candidatura se prevalecer a idéia de que tanto faz qualquer dos três adversários de ACM Neto?
É preciso – diz a turma do deixa-disso – esperar o que Wagner dirá nas convenções dos demais aliados. Aposta-se na sabedoria verbal do conjunto das falas, da qual não duvido. Mas creio que para as eleições e a saúde política de Salvador melhor prestar atenção é na reação dos prejudicados pelo discurso continuísta do governador. Fará toda a diferença se, numa primeira hipótese, Pinheiro, o PT e os partidos aliados vestirem a carapuça de contrariados e realizarem uma campanha diferenciada, de modo a levar o governador a um reposicionamento; ou se, numa segunda hipótese, acomodarem-se ao script e buscarem, cada qual, seu quinhão na futura prefeitura, ou nas chapas de 2010, como cachês políticos pela encenação de um novo plebiscito. A diferença entre as duas hipóteses refletirá nos ônus e bônus que a cidade receberá de suas elites políticas, nos próximos quatro anos. Os últimos quatro terão bastado como lição?

Salvador, 17 de junho de 2008
[1] Professor de Departamento de Ciência Política, doutor em Ciência Política pelo IUPERJ, pesquisador e atual Diretor do CRH/UFBA. e-mail: pfabio@ufba.br

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