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Horário gratuito em São Paulo começa assustando o eleitor

Engenheiro gosta de matemática, domador gosta de fera, médico de sangue, o Noblat gosta de novela, então não julgue a esquisitice que vou confessar agora: o meu envolvimento com o Horário Eleitoral Gratuito vai muito além do dever profissional. Por isso eu fico arrasada em momentos como o do primeiro dia do programa, quando finalmente entram em campo os jogadores, mas quem aparece é o time reserva.

Se o eleitor já é resistente ao nosso ofício, o que dizer do programa eleitoral de 2008 inaugurar na hora do sagrado almoço com os berros da dra Havanir? Se eu pego quem inventou de começar a campanha pelos proporcionais…
Porque não foi apenas a companheira do saudoso Meu nome é Enéas, da coligação Tostão conta o Milhão, que assustou o paulistano com o tom de voz elevado no começo deste longo período de convivência eleitoral na TV. Nos dois minutos e meio do bloco dos vereadores que apóiam o candidato Paulo Maluf, foi preciso até baixar o som da televisão, tão alto bradava o locutor contando tudo o que o ex-prefeito fez e vai fazer, incluindo a mirabolante novidade da “primeira freeway da América Latina” nas marginais, tendo ao fundo uma trilha sertaneja com letra e tudo.
É, eu sei, o eleitor sofre, e como sofre para encarar duas vezes por dia os 30 minutos do Horário – ou Guia Eleitoral, como chamam o programa em algumas regiões do Brasil. Mas agora, querido eleitor, peço que você esqueça um pouco o seu sofrimento e pense no nosso lado, o dos profissionais de comunicação política.
De como é uma arte enfileirar dezenas de candidatos a vereador, muitos deles sem nenhuma idéia na cabeça enquanto a gente está com aquela câmera na mão. De como alguns bem preparados teriam tanto para aprofundar, mas têm somente os poucos segundos de direito para dividir com o resto da turma.De como a gente sabe que pode ser inútil para o resultado da votação os parcos minutos de fama a que cada um tem direito no rádio e na TV.

Mas de como é vital, para a conjunto da obra, aproveitar bem este espaço concedido às terças, quintas e sábados para quem precisa, em 47 dias, garantir a maioria das vagas disponíveis para os vereadores e ao mesmo tempo eleger o prefeito de uma cidade respeitando a regra de não invadir o horário dos proporcionais, num limite tênue que requer muita experiência para driblar.
Pois na estréia em São Paulo, quem melhor fez uso do tempo dos proporcionais, seguindo o raciocínio acima, foi a candidata do PT, Marta Suplicy. No estilo que o nosso jargão batizou de jogral, os candidatos que apóiam a ex-prefeita deram seu recado a partir de um roteiro lógico que vendeu as realizações dela e incluiu nas plataformas deles as promessas da campanha majoritária. A edição do programa também foi feliz, cortando do estúdio para imagens de externa, dando um certo calor à monotonia. Finalmente, no quesito cenário, mais um ponto para o PT, que mostrou um estúdio amplo, ao fundo fotos da prefeita e de ícones da cidade, utilizado também pelos candidatos do PSB, em novo ângulo, mas não pelos do PC do B, que entraram em carreira solo.
Depois de Marta, no ranking de sucessos dessa geléia geral, o prefeito Gilberto Kassab, candidato do DEM, levou a medalha de prata. Mereceu subir no pódio mais pela estratégia do que pela forma. Sim, os balõezinhos mágicos (idênticos aos da candidata-musa do PC do B em Porto Alegre, Manuela Dávila) estavam lá e fizeram seu papel lúdico nos jingles que entremearam as falas dos vereadores, num posicionamento faixa preta para escolher a adversária e escantear o candidato do PSDB da disputa.
E diziam mais ou menos assim: “xôôôôô…o PT teve a sua vez e São Paulo não gostôôô….O PT mandando aqui eu não quero não, pelo amor de Deus! (Pelo amor de Deus? Foi isso mesmo o que eu ouvi…). Outro: “Quero saúde, mais taxa, não. Pra melhorar, deixa quem sabe trabalhar”, numa clara provocação ao slogan do presidente Lula em 2006. Porém nem todos os programas dos vários partidos que apóiam Kassab acompanharam a estratégia, nem mesmo foram gravados num cenário que remetesse ao candidato majoritário, embora a totalidade tenha disciplinadamente pedido voto para ele.
Na mesma disciplina, os candidatos a vereador pediram voto para o postulante do PSDB, Geraldo Alckmin. No entanto o programa não teve nenhum colorido especial, sequer no cenário ou nas vinhetas, tudo de uma simplicidade franciscana. O bloco do segundo colocado nas pesquisas foi – não tenho outra expressão – careta, simplesmente careta.
No mais, os candidatos a vereador que apóiam a Soninha entraram com tudo e em ritmo de balada, seja na trilha ou na fala, todos repetindo meio rimado o slogan dela “quem disse que não tem jeito?”. O fundo preto perturbou a clareza da imagem dos candidatos, meio mal iluminados, mas teve sua função na estratégia de atrair o eleitor mais jovem. Os anos de janela de Soninha na MTV, afinal, têm a sua valia.
Já o troféu folclóre não teve apenas um ganhador. Sobrou para os candidatos do esporte e do entretenimento (corinthianos e sãopaulinos, judocas e jogadores, cantores e apresentadores), da Igreja, do samba (com menção honrosa para o PRTB com uma ala de porta-bandeiras cantando uma marchinha que comprova a tese de que São Paulo é o túmulo do samba), para a drag queen Salete Campari e para o pessoal do PSDC, que não apenas adotou o jargão mas realizou um jogral de fato: “quem é 27”, dizia um candidato, para outro logo responder, “eu sou 27”, em seguida mais um declamando “São Paulo melhor”, e ainda mais um dizendo “melhor pra você”, e o último finalizando: “27”!
Então tá, ficamos assim que logo, logo tem mais!

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