Pular para o conteúdo
1

NECESSIDADE E POTENCIALIDADE

Jaime Lerner*

Pensar numa cidade já sedimentada é como procurar seu desenho escondido. É como, num velho desenho, apagar tudo o que está atrapalhando.

“Tendência não é destino” (René Dubos). O destino das cidades está em nossas mãos e pode ser continuamente realimentado, por aproximações sucessivas. É como se fôssemos dar um tiro. Mas um tiro cuja trajetória temos condições de acompanhar e corrigir a qualquer momento.

A cidade representa muito mais que uma integração de funções. Ela representa uma sedimentação. Essa sedimentação se refere ao modo de vida e aos valores tradicionais e culturais. A cidade nova precisa de sedimentação. Esse tempo de sedimentação lhe conferirá a ambientação necessária.

Pensar numa cidade já sedimentada é como procurar seu desenho escondido. Arqueologia estranha que vai revivendo antigas edificações, ruas, antigos pontos de encontro, dando novas funções a valores que nos eram caros. É como, num velho desenho, apagar tudo o que está atrapalhando. É como descobrir, num caleidoscópio, aquele desenho antigo que vai possibilitar o encontro. É como dar novo conteúdo a esse desenho, consolidando-o com o uso do solo e com a ossatura viária. Esses fatores, quando integrados numa só diretriz, definem a estrutura de crescimento de uma cidade.

Numa cidade ainda não sedimentada, o desenho – sua estrutura de crescimento – tem que ser criado. O vazio da cidade decorre da falta de continuidade. “O espaço visual é uniforme, contínuo e interligado.” (Marshall McLuhan). A rua tradicional é linearmente definida. Sua variedade está naquilo que nela acontece.

No trato dos problemas urbanos, é importante atuar na causa e no efeito. Muitos entendem que não adianta cuidar das cidades enquanto as causas que estimulam cada vez mais a concentração dos grandes centros urbanos não forem resolvidas. Porém, enquanto as causas não forem solucionadas e os efeitos continuarem acontecendo nas cidades, alguma coisa tem que ser feita nesta transição. E rápido.

Existem duas maneiras de atuar: propor medidas para evitar que as causas continuem acontecendo; ajudar a resolver os problemas já existentes. Propomos uma estratégia de atuação que aproveite essa transição, na rapidez com que se compromete a estrutura de crescimento urbano, mesmo que os elementos que a compõem, como o transporte de massa, o uso do solo e a ossatura viária, não sejam definitivos.

Uma cidade só pode ser solucionada a partir do momento em que ela sabe o que quer, isto é, a partir do momento em que os responsáveis por ela saibam o que é fundamental para o seu futuro. Tudo é importante, mas o que é fundamental?
Importante é o problema de qualquer pessoa, mas fundamental é o do grande número.

Importante é o buraco ou a valeta na frente da casa do cidadão, mas fundamental é o encaminhamento do problema de transporte de uma cidade.

Importante é o acesso para determinado bairro, fundamental é o sistema viário que representa, em essência, o esqueleto daquilo que a cidade quer ser.

Importante é a praça de determinado setor, mas fundamental é o aumento substancial do índice de áreas verdes na cidade.

Importante é a ajuda a determinados grupos e entidades necessitados, mas fundamental é promover a estrutura permanente de empregos.

Não vamos nos confundir com a escala, porque às vezes importante é colocar 10 mil pessoas numa inauguração, mas fundamental é reunir 200 pessoas numa atividade cultural.

Importante é o plano, fundamental é o planejamento, isto é, gente que se ocupe da cidade.

Importante é o longo prazo, fundamental é agora.

Na velocidade com que se desenvolvem as cidades brasileiras, qualquer plano que demore mais de dois anos para ser executado estará obsoleto. A pressa é amiga da perfeição. Vamos pensar no ideal e realizar o possível. Já.

Quebrando o raciocínio convencional, digo que devemos ter um certo compromisso com a imperfeição. Deixar coisas definitivas e irreversíveis é desdenhar da capacidade das novas gerações, é duvidar que elas estejam preparadas para participar de qualquer processo. É dimensionar ao máximo o problema e ao mínimo a capacidade das gerações futuras.

* Jaime Lerner, arquiteto e urbanista, com projetos e consultoria em diversas cidades do mundo, foi duas vezes governador do Paraná e três vezes prefeito de Curitiba, quando liderou a revolução urbana que fez da cidade referência nacional e internacional em planejamento urbano.

Anúncios
1 Comentário Comente
  1. jul 27 2008

    Ameiiiii
    Idéias geniais para quem quer mesmo encarar com serenidade e responsabilidade ao que promete.
    favor responder as minhas curiosidades.
    ganhei um fusca para pintar de cor de rosa para meus eventos nas escolas.
    e pensando bem usarei ele para minhas campanhas de marketing para as próximas eleições .
    responda por favor!
    quero fazer uma praça para as crianças brincarem.
    abraço .
    NEIDE BRANDAO

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Observação: HTML é permitido. Seu endereço de e-mail nunca será publicado.

Assinar os comentários

%d blogueiros gostam disto: